Biodiversidade: risco ou oportunidade para as empresas?
8 de Janeiro de 2010 às 17:04 Daniela Lerda | Enviar por e-mail
Por Daniela Lerda*
Durante a semana de 30 de novembro a 4 dezembro, mais de 200 representantes de empresas, ONGs, agências de fomento e governos participaram da Terceira Reunião sobre o Desafio 2010 para a Biodiversidade e o Setor Privado. Organizada pelo programa Nacional das Nações Unidas e pelo secretariado da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB), a reunião aconteceu em Jacarta, na Indonésia, com o objetivo de promover a discussão sobre a participação do setor privado na conservação da biodiversidade. Além disso, serviu para compartilhar experiências entre diferentes grupos de interesse e encaminhar recomendações e propostas para a próxima Conferência das Partes da CDB (COP-10), que acontecerá em Outubro de 2010, no Japão.
A apresentação do novo relatório sobre “A Economia de Ecossistemas e da Biodiversidade” (TEEB, por sua sigla em inglês) conduzido por um grupo de economistas e outros especialistas do tema, pautou a discussão da reunião, alertando autoridades, empresas e outros atores da sociedade a acelerar e ampliar os investimentos na gestão e restauração de ecossistemas. “As principais oportunidades de retorno financeiro nos próximos 10 anos estarão vinculadas ao capital natural. A redução de emissões por desmatamento evitado (REDD - Reducing Emissions from Deforestation and Degradation) pode representar um mercado de ate $100 bilhões de dólares. A restauração de ecossistemas pode ser a principal solução para as adaptações que serão necessárias por conta das mudanças climáticas e seu impacto na segurança alimentar, desastres naturais e na disponibilidade de água – o que representa um enorme potencial de geração de emprego e renda. O setor privado pode e deve atuar nesse Mercado”, comentou Pavan Sukhdev, líder do estudo. A participação do setor privado na restauração de ecossistemas degradados representa um grande mercado ainda pouco explorado por empresas interessadas em compensar seus impactos.
O evento contou com a participação das principais organizações que desenvolvem parcerias com empresas para medir seu grau de dependência e impacto na biodiversidade e nos ecossistemas. Das iniciativas apresentadas, algumas focaram a avaliação de desempenho de empresas através de índices como o Global Reporting Initiative (GRI) e Valor Natural (Natural Value Initiative - NVI) que buscam apresentar o nivel de gestão ou dependência de diferentes setores (como bebidas, alimentos, e tabaco) sob a biodiversidade e ecossistemas.
Uma das principais conclusões da reunião é que apesar de haver uma tendência de crescimento nos portfolios de investimentos socioambientalmente responsáveis por parte do setor privado, a incorporação da variável ambiental nas análises de risco para a concessão de credito ou de investimentos é ainda incipiente no mercado financeiro. Reportar ao mercado financeiro os riscos relacionados à ausência de planejamento em sua carteira de investimentos sobre o aspecto socioambiental é crucial para a inclusão desse setor nessa agenda.
Outras iniciativas discutidas foram os avanços de certificação como no caso do selo Forest Stewardship Council (FSC), e a iniciativa brasileira LIFE, que apresenta uma metodologia agregada para reconhecer medidas adicionais de empresas em termos da sua responsabilidade ambiental. Metodologias de compensação de impactos também foram apresentadas, como no caso do Programa para Empresas de Compensações para a Biodiversidade (BBOP, por sua sigla em inglês) e a Revisão Empresarial de Serviços Ecossistêmicos, metodologia que permite às empresas desenvolver estratégias de gestão de riscos e de oportunidades de negócio provenientes da sua dependência de ecossistemas saudáveis.
O Brasil, representado pelo Ministério do Meio Ambiente, apresentou uma proposta conjunta com os governos da Alemanha e Japão, para a criação de um ambiente favorável a participação do setor privado na Convenção. A ideia da proposta é buscar diferentes formas de participação do setor na conservação da biodiversidade – seja através de processos de certificação voluntarias, ou medidas de adequação a um marco regulatório. A reunião concluiu com dois grandes resultados: a Carta de Jacarta, desenvolvida pelos participantes que pauta uma declaração sobre o Setor Privado e a Biodiversidade, e a construção de recomendações para fomentar a estratégia 2020 para o setor privado e a biodiversidade. Esses documentos (disponíveis no site da Convenção) servirão para orientar as decisões tomadas durante a próxima COP.
Para mais informações, visitar http://www.cbd.int/business
* Daniela Lerda é coordenadora da Unidade de Projetos Estratégicos do Funbio e participou da reunião de Jacarta como representante do Funbio.
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