Fundo Juruti Sustentável seleciona 18 projetos na segunda etapa do Edital 01/2009 Reserva Biológica do Tapirapé comemorou 20 anos e o Funbio esteve lá.

Visita à Rebio Tapirapé

12 de Novembro de 2009 às 14:25 Lysandre Ribeiro  | Enviar por e-mail

Prezad@s leitores, tomei a liberdade de escrever esse relato na primeira pessoal do singular. Atendendo ao pedido feito pela Gerência do Arpa no Funbio, Raimundo Façanha e Patrícia Farina organizaram minha visita à Reserva Biológica do Tapirapé. Essa foi minha primeira viagem à Amazônia pelo Arpa e minha primeira visita a uma UC apoiada pelo programa. Lysa Ribeiro

De Marabá a Carajás
No dia 29 de outubro, na manhã seguinte ao evento em comemoração aos 20 anos da Reserva Biológica do Tapirapé em Marabá (PA), peguei carona em um dos carros do ICMBio com analistas ambientais do Mosaico de Carajás até a floresta nacional que tem o mesmo nome. Entre eles, Edilson Esteves, um veterinário de Osasco que é chefe da Flona Itacaiúnas e edita vídeos muito bacanas sobre ações de fiscalização usando heavy metal como trilha sonora. Ele e seus colegas vão me mostrando pontos importantes do caminho como a entrada para Serra Pelada e o “monumento” com troncos queimados na beira da estrada para lembrar o famoso e triste episódio de Eldorado de Carajás. Vão me explicando como é a vida no núcleo urbano da Vale na Serra de Carajás, bem no meio da Flona Carajás.

Entrando em Parauapebas começo a sentir o “efeito Vale” na aparência e no comércio da cidade. Alguém me conta que o aluguel de uma quitinete (quarto com banheiro) na cidade chega fácil a R$ 500, 00 e chama a minha atenção para o fato de que não há sistema de esgoto na cidade. No limite entre a cidade e a entrada da Flona Carajás, a portaria enorme e bem guardada me lembra um pedágio. A estrada dentro da Flona é muito boa e a paisagem de serra é muito bonita. São 25 quilômetros até o núcleo urbano da Vale e na medida em que vamos avançando vai ficando mais fresco. Entramos na “vila” e vou logo vendo as casas. São cerca de 5 mil pessoas morando no local. As casas podem ser de dois ou três quartos, dependendo do nível do funcionário na empresa, e não têm cercas ou muros na frente. Todas têm um quintal gramado e a maioria tem árvores. Outra imagem vem à minha cabeça: aqueles bairros americanos que a gente vê nos filmes.

DSC04558 - DSC04558

O ICMBio tem direito a dez casas no núcleo urbano. Como Patrícia Farina estava hospedando outras pessoas, fico na casa que a analista ambiental baiana Francileia Lobo de Souza, a Léia, está dividindo por enquanto com a paranaense Renata Vargas. Léia está na Amazônia há 3 anos e quatro meses, sendo que os últimos 4 meses trabalhando no Mosaico de Carajás. Renata chegou à Rebio Tapirapé há 4 meses.

casas da Vale renamed 27674 - casas da Vale renamed 27674

A visita à Rebio Tapirapé
No dia 30, sexta, Renata e eu nos despertamos antes das seis para a viagem até o Posto do Bacaba na Rebio. Essa é a primeira vez que Renata vai ao posto. Na Flona, uma neblina densa baixa até o chão e me faz pensar no fog londrino, que conheço por enquanto só de nome. Renata me conta que está se preparando para o “inverno”, que é como chamam a temporada de chuva que começa no que é o verão para o resto do país. Fico achando que não vale a pena viajar com aquele tempo, mas a medida que vamos saindo de Carajás, tudo muda. O sol não chega a sair, mas já não há neblina ou garoa, e o calor só aumenta. Ainda bem que não paguei o mico de comentar com meus anfitriões que o tempo não estava para viagem…

fog em Carj  s 1 2 - fog em Carj  s 1 2

Vou no mesmo carro que Patricia, Renata e Amarílio Fernandes, o chefe da Flona Tapirapé-Aquiri. Em outro carro seguem o chefe da Rebio Raimundo Façanha, o guarda florestal Thayronne da Paixão e o analista ambiental Sandro Roberto da Silva Pereira que trabalhou na UC entre 2002 e 2004 e atualmente chefia a APA das Ilhas e Várzeas do Rio Paraná no Mato Grosso do Sul. Saindo do centro de Parauapebas pegamos uma estrada estreita de terra, com muito sobe e desce, e várias pontezinhas. Ladeando a estrada vejo muito pasto e pouco gado, alguns acampamentos de sem-terras e quase nada de mata. Uma paisagem parecida com a estrada entre Marabá e Parauapebas, com exceção é claro, do asfalto e do tamanho da pista. E do sobe desce, que faz a gente sair do banco traseiro algumas vezes. Temos rádio na maior parte do tempo e a trilha sonora é composta de bregas, sucessos do século passado (nasci em 1974!) e versões dos mesmos sucessos.

par de castanheiras no caminho - par de castanheiras no caminho

sobe e desce - sobe e desce

No caminho, Patricia me explica como é o trabalho da guarda florestal, que na Rebio mantém sempre dois homens num esquema de revezamento de 15 em 15 dias. Ela é fã do trabalho deles e os chama carinhosamente de seus anjos da guarda. Fico pensando como devem ter sido os primeiros meses dela, que é de Birigui (SP), vivendo e trabalhando na Amazônia. Pelo que ela conta sua experiência não está sendo muito diferente da de outros gestores com quem tive contato através do Arpa: o trabalho na Amazônia apaixona e desafia, mas cobra muito pelas condições e pelo isolamento.

Para chegar até a margem do rio Tapirapé, que depois atravessaremos de voadeira para chegar no Posto do Bacaba, passamos por uma grande fazenda. A mistura de estrada, pasto, porteira e mata, me faz lembrar umas viagens de carro à Fazenda Rio Negro, aquela da Conservação Internacional, no Pantanal sul-mato-grossense. Já na margem, as sirenes dos carros são ligadas para avisar que chegamos. Um florestal vem nos buscar com uma voadeira e a visão do posto na barranca do Tapirapé é para mim simplesmente linda. Com o calor, a escadaria me deixa meio zonza, mas logo estou na varanda da base, que foi construída com recursos da Vale em 2004 e reformada em 2007 pelo Arpa.

chegada ao Tapirap   - chegada ao Tapirap

avistamos o posto - avistamos o posto

Façanha e Patricia fazem as honras da casa e me mostram as instalações. São quatro quartos, três banheiros, copa, cozinha, sala do rádio e uma boa sala, onde mais tarde eu assistiria ao Jornal Nacional e à novela das oito com o pessoal, graças ao gerador. Em seguida o almoço é preparado e servido pelos florestais, que além de “selva” são ótimos cozinheiros. Caio dentro do frango com molho, arroz, feijão e arremato com a farinha amarela.

Depois de descansar um pouco é hora fazer a trilha atrás da casa. Amarílio e o guarda Thayronne vão abrindo o caminho, seguidos por Renata, Sandro e por mim. As castanheiras que vi nos pastos têm um aspecto diferente das que vejo nas matas. Amarílio me conta que a lei do Pará proíbe o seu corte. Durante a caminhada, converso mais com Sandro. Ele participou do comecinho do Arpa, quando preencheu as planilhas em Excel pré-Cérebro (que o pessoal do Funbio nunca esquece!), e chegou a ir ao encontro do programa realizado em 2007 em Belém. Além de muitas borboletas, não vimos nada de bicho até a volta, quando avistamos um grupo de macacos prego no topo das árvores. Eles também nos viram e depois de uns minutinhos de observação mútua, nós resolvemos seguir para não levar os “presentinhos” que eles costumam jogar na cabeça de quem passa.

igarape final trilha renamed 2760 - igarape final trilha renamed 2760

borboleta renamed 28915 - borboleta renamed 28915

De volta ao posto, nos dedicamos a catar carrapatos. Papo vai, papo vem, já era hora de jantar um peixe delicioso. Depois da novela e do jornal, gerador desligado, os barulhos da floresta preenchem a casa. Durmo rápido e bem, pensando que dei sorte de ter tanto conforto em minha primeira viagem à Amazônia.

No dia seguinte, saímos de barco antes de almoçar. Renata, Patrícia, Sandro, Thayronne e eu descemos o Tapirapé e passamos depois para o rio Itacaiúnas, que me pareceu ser mais largo. Vemos algumas aves, principalmente a cigana, um e outro tracajá, e tenho quase certeza que avistei um jabuti num tronco caído às margens do Itacaiúnas. Patricia me conta que quando os rios sobem dá para chegar no Bacaba de barco e me conta que a primeira vez que viu a água subindo ficou maravilhada. Começamos a voltar com alguns pingos de chuva, mas no posto já não cai nada. É impressionante como o céu muda de repente.

Rio Itacai  nas renamed 22018 - Rio Itacai  nas renamed 22018

O guarda florestal Thayronne
florestal Thayronne renamed 15910 - florestal Thayronne renamed 15910

Patrícia Farina
Patricia - Patricia

Sandro Pereira e Renata Vargas
sandro e renata - sandro e renata

Depois de almoçar, deixamos o Bacaba. Agradeço ao Façanha pela oportunidade de conhecer o Bacaba e percebo no jeitão de poucas palavras dele que lhe dá muito orgulho cuidar de toda aquela beleza. Durante a viagem de volta, fixo a impressão de que tem muita pastagem prá pouco boi e chego à conclusão de que os latifúndios e os acampamentos dos sem-terra na Amazônia ilustram a desigualdade social e econômica no nosso país tão bem quanto o contraste entre o asfalto e a favela do meu Rio de Janeiro.

De Carajás ao Rio
Retorno à casa de Léia e Renata. Para retribuir a hospedagem, cozinho para elas. Vou dormir cedo e às seis da manhã Patricia vem me buscar. Ela também dá carona para Sandro e para Cecília Cordeiro de Jesus, analista ambiental que também já trabalhou no mosaico e viajava com os dois filhos. Ela ainda conserva amizades que fez no núcleo urbano da Vale. Em Parauapebas, a família toma logo o micro-ônibus para Marabá e eu espero um pouco com Sandro. Já em Marabá, almoçamos na orla e depois amargamos uma longa espera pelo vôo para Brasília no aeroporto. Muita água e picolés de açaí nessa hora! Chego no Rio quase onze da noite, converso com o taxista sobre as últimas da cidade e entrando em casa percebo que o Rio não fica atrás da Amazônia em termos de calor. Menos mal que temos a praia! :0)

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